Direito Empresarial

Contrato de locação comercial: o que precisa ter, quais as garantias e como proteger o ponto?

Contrato de locação comercial: elementos essenciais, garantias (sem acumular modalidades, art. 37 da Lei 8.245/1991), prazo, reajuste e a proteção do ponto pela renovatória. Para locador e locatário.

Contrato de locação comercial: o que precisa ter, quais as garantias e como proteger o ponto?
Em resumo

O contrato de locação comercial urbana, quando abrangido pela Lei 8.245/1991, deve tratar de partes, imóvel, aluguel e reajuste, prazo, uso e encargos. Admite-se uma modalidade de garantia, sem acumulação (art. 37). A renovatória exige contrato escrito e determinado, cinco anos de contratos escritos ininterruptos e três anos no mesmo ramo, além de cumprimento contratual, documentos e ajuizamento no prazo. Não basta assinar por cinco anos.

Para quem empreende, o ponto comercial pode concentrar clientela, identidade da marca e investimentos construídos ao longo de anos. Muitas empresas funcionam em imóveis alugados. Por isso, o contrato de locação comercial não é mero detalhe burocrático: organiza o uso do local, os custos e as possibilidades de permanência.

Um contrato ajustado ao negócio ajuda a proteger o ponto, distribuir responsabilidades e antecipar riscos. Um modelo genérico pode omitir particularidades de uso, obras ou renovação. Neste guia, você verá os elementos relevantes, garantias permitidas, efeitos do prazo e cuidados com a venda do imóvel, com um exemplo fictício. Nenhuma redação garante ausência de conflito.

O que deve constar em um contrato de locação comercial?

Um contrato de locação não residencial, regido pela Lei 8.245/1991 (Lei do Inquilinato), deve trazer, no mínimo:

  • Partes e imóvel: qualificação do locador e do locatário e descrição precisa do imóvel.

  • Valor e reajuste: aluguel, vencimento e índice lícito (IGP-M, IPCA ou outro), respeitada a periodicidade mínima anual da Lei 10.192/2001.

  • Prazo: de preferência determinado e por escrito (com efeito decisivo na proteção do ponto, como veremos).

  • Garantia: se exigida, uma modalidade, sem acumulação.

  • Destinação: atividade permitida, licenças, uso urbanístico e regras do condomínio.

  • Encargos e benfeitorias: quem paga IPTU e condomínio, e o tratamento das benfeitorias e da devolução do imóvel.

Cláusulas sobre rescisão, multa, cessão, sublocação e vigência em caso de venda também são importantes. Na locação comum, despesas ordinárias de condomínio são do locatário e extraordinárias do locador; IPTU pode ser atribuído ao locatário por cláusula expressa (arts. 22–23). Benfeitorias necessárias e úteis têm o regime do art. 35, que admite disposição contratual expressa em contrário: não presuma reembolso de toda obra. Shopping centers e locações sob medida do art. 54-A exigem exame de regras próprias.

Qual a diferença entre locação comercial e residencial?

Nas locações urbanas abrangidas pela mesma lei, o uso não residencial tem regras próprias. A ação renovatória permite ao empresário pedir judicialmente a continuidade para proteger o ponto, desde que preenchidos os requisitos. O locador conserva as defesas dos arts. 52 e 72; não se trata de renovação automática nem de mecanismo igual ao residencial.

Nas locações não residenciais comuns do art. 56, o prazo determinado termina ao vencer. Se o locatário permanecer por mais de trinta dias sem oposição, presume-se prorrogação indeterminada. A denúncia desta exige aviso escrito e trinta dias para desocupação (art. 57). Sem entrega voluntária, o locador deve usar a via judicial adequada, não retirar o ocupante à força.

Quantas garantias o locador pode exigir?

O locador pode contratar sem garantia ou exigir uma modalidade, sem cumular tipos no mesmo contrato. O art. 37 prevê quatro:

  • Caução (em dinheiro, bens móveis ou imóveis);

  • Fiança (com fiador);

  • Seguro de fiança locatícia;

  • Cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento.

O parágrafo único do art. 37 proíbe, sob pena de nulidade, a acumulação de modalidades. Pedir fiador e caução ao mesmo tempo também se enquadra na contravenção do art. 43, II. A caução em dinheiro, especificamente, não pode exceder três meses de aluguel e deve ser depositada em poupança, com os benefícios em favor do locatário (art. 38). Não estenda esse limite a toda garantia.

Qual o prazo ideal e como proteger o ponto comercial?

O prazo não é só uma questão de conveniência — ele tem um efeito jurídico estratégico. Para ter direito à ação renovatória (que protege o ponto), o contrato precisa preencher os requisitos do art. 51 da Lei 8.245/1991:

  • Contrato escrito e por prazo determinado;

  • Cinco anos no contrato ou na soma de contratos escritos ininterruptos.

  • Exploração ininterrupta do mesmo ramo por pelo menos três anos.

Um contrato escrito de cinco anos atende a uma exigência de prazo, mas contratos escritos mais curtos podem ser somados se ininterruptos. O prazo adequado depende do negócio. A ação deve ser proposta entre um ano e seis meses antes do término do contrato vigente (art. 51, § 5º). Além disso, o art. 71 exige prova do exato cumprimento, dos tributos de responsabilidade do locatário, condições propostas e documentos da garantia quando aplicável. A perda da janela extingue o direito à renovatória daquele contrato; não torna proibida uma renovação consensual.

Exemplo prático: a Padaria do Sérgio

Exemplo fictício: Sérgio abre uma padaria em um ponto movimentado de São Paulo. Assina contratos de doze meses, mas algumas extensões ficam apenas informais. A clientela cresce. Ao vencer o contrato, o proprietário quer retomar para alugar a um concorrente por valor maior, e Sérgio só então procura organizar a documentação.

Se os contratos escritos ininterruptos somarem menos de cinco anos, faltará uma condição da renovatória. Um contrato inicial de cinco anos melhoraria essa base, mas ainda seriam necessários três anos no mesmo ramo, cumprimento e ação tempestiva. Se a renovatória for cabível, a simples oferta de concorrente não resolve a defesa: o art. 72, § 2º, impede usar como melhor proposta a de terceiro do mesmo ramo. O exemplo mostra a importância de planejar e documentar, sem garantir permanência.

Contrato de locação de consultório odontológico: imóvel, cadeira ou estrutura?

O contrato de locação de consultório odontológico pode envolver apenas uma sala ou também cadeira, instrumentais, recepção e outros recursos. Antes de adaptar um modelo, desenhe o fluxo: quem contrata o atendimento, recebe do paciente, fornece materiais e assume cada custo? Chamar todo o pacote de “aluguel” deixa perguntas importantes sem resposta.

Três relações que precisam ser identificadas no ajuste
RelaçãoO que descreverPonto de atenção
Locação do imóvelSala, destinação, prazo, aluguel, encargos, obras e devolução.Conferir a incidência da Lei do Inquilinato, o contrato principal e as regras do edifício.
Uso de cadeira e estruturaEquipamentos, horários, apoio administrativo, materiais incluídos e manutenção.Inventário e responsabilidades devem acompanhar o contrato; estrutura compartilhada não elimina deveres sanitários e profissionais.
Prestação de serviços com repasseAtendimento contratado, cobrança do paciente, base do repasse, despesas e prestação de contas.Percentual de remuneração não define sozinho a natureza da relação, nem afasta a avaliação trabalhista e ética.

O modelo institucional do CRO-PR ilustra um ajuste com espaço, cadeira e estrutura operacional. Seus percentuais e condições são exemplos de redação: não são tabela obrigatória nem aprovação para qualquer clínica. A divisão contratual de tarefas não afasta, por si só, responsabilidades legais perante pacientes ou trabalhadores. Se o imóvel for alugado, verifique o consentimento prévio e escrito do locador para cessão, sublocação ou empréstimo, total ou parcial, conforme o art. 13 da Lei 8.245/1991. Dar outro nome ao contrato não resolve essa conferência.

O que registrar antes do primeiro atendimento

  • Inventário e conservação: identifique bens e estado de entrega, fotos, manutenção preventiva e corretiva, substituição durante indisponibilidade e procedimento de comunicação de dano.
  • Preço e despesas: separe aluguel ou taxa de uso, apoio, consumíveis e serviços. No repasse, documente a base, descontos, estornos, vencimentos e como conferir os recebimentos.
  • Acesso e rotina: horários, chaves, recepção, esterilização, limpeza, resíduos e uso de equipamentos devem ser compatíveis com a atividade autorizada.
  • Agenda e prontuários: estabeleça perfis de acesso, sigilo, segurança, guarda e acesso do paciente. O compartilhamento do endereço não autoriza livre acesso aos registros de outro profissional. Dados de saúde seguem as hipóteses do art. 11 e as medidas de segurança do art. 46 da LGPD.
  • Encerramento: combine aviso, conferência dos bens, acerto financeiro, retirada de acessos e comunicação aos pacientes. Organize a continuidade dos atendimentos e a guarda dos registros; prontuário não deve ser tratado como simples item de estoque transferível entre as partes.

A RDC Anvisa 63/2011 trata de licença sanitária local, organização e recursos do serviço de saúde. Na odontologia, deve-se conferir também a RDC Anvisa 1.002/2025: ela trata expressamente de consultório compartilhado, incluindo coworking, responsabilidade técnica e licença sanitária. Seu art. 182 prevê 360 dias da publicação para adequações e regras próprias para estabelecimentos novos ou que retomam atividades; esse prazo não dispensa as demais normas sanitárias vigentes. A contratação deve conferir as exigências da vigilância sanitária e do conselho profissional para a operação e o local concretos. O contrato não substitui licença, habilitação ou responsabilidade técnica. Para contratação de trabalho profissional, leia também a análise de contrato PJ e vínculo de emprego.

Os erros mais comuns (e caros)

  • Ignorar a escrita e a continuidade. Contratos curtos podem somar cinco anos; contratos verbais ou períodos não documentados podem impedir a renovatória.

  • Aceitar mais de uma garantia. Exigir fiador e caução juntos é nulo (art. 37, § único).

  • Esquecer prazo, cláusula de vigência e registro. A ausência dos requisitos do art. 8º pode permitir denúncia pelo adquirente, dentro das condições e prazos legais.

  • Não definir reajuste e encargos. A omissão sobre índice, IPTU e condomínio pode gerar disputa.

  • Usar modelo genérico. Confira se o modelo contempla a atividade, o imóvel e as condições efetivamente negociadas.

Checklist: para um bom contrato de locação comercial

  • Defina o prazo adequado por escrito e controle os requisitos e a janela da renovatória.

  • Se houver garantia, adote uma modalidade. O teto de três meses e a poupança se aplicam à caução em dinheiro.

  • Fixe o valor, o índice de reajuste e os encargos (IPTU, condomínio).

  • Defina a destinação (atividade) e o tratamento de benfeitorias e devolução.

  • Para proteção na venda, estipule prazo determinado, cláusula de vigência e registre o contrato na matrícula. Confira também o direito de preferência, que tem regras próprias.

  • Revise o contrato com um advogado de Direito Empresarial antes de assinar.

Perguntas frequentes sobre contrato de locação comercial

O que deve constar em um contrato de locação comercial?

O contrato deve identificar partes e imóvel e tratar de aluguel, reajuste, prazo, uso permitido, licenças, eventual garantia, encargos, benfeitorias e devolução. Não se podem acumular modalidades de garantia. Na locação comum, despesas ordinárias de condomínio cabem ao locatário e extraordinárias ao locador; o IPTU pode ser transferido ao locatário por cláusula expressa. Rescisão, multa, cessão, sublocação e vigência em caso de venda também exigem análise conforme a Lei 8.245/1991.

Qual a diferença entre locação comercial e residencial?

As locações urbanas abrangidas pela Lei 8.245/1991 seguem regras diferentes conforme o uso e o prazo. Na comercial, o locatário pode pedir judicialmente a renovação se reunir os requisitos dos arts. 51 e 71, observado o prazo para ajuizar e as defesas legais do locador. Nos casos comuns do art. 56, o prazo determinado termina ao vencer; permanência por mais de trinta dias sem oposição presume prorrogação indeterminada. A denúncia desta exige aviso escrito e trinta dias para desocupação (art. 57), sem autorizar retirada forçada pelo locador.

Quantas garantias o locador pode exigir no contrato?

O locador pode exigir uma modalidade, ou contratar sem garantia, mas não acumular modalidades no mesmo contrato. O art. 37 admite caução, fiança, seguro de fiança locatícia e cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento. A caução pode ser em dinheiro, móveis ou imóveis; apenas a caução em dinheiro tem o teto de três meses de aluguel e deve ser depositada em poupança, com os benefícios revertidos ao locatário (art. 38).

Qual o prazo ideal para um contrato de locação comercial?

Não existe prazo ideal para todo negócio. A renovatória exige contrato escrito e determinado, cinco anos no contrato ou na soma de contratos escritos ininterruptos e três anos de exploração ininterrupta do mesmo ramo. Contratos curtos podem ser somados quando preenchidas essas condições. A ação deve ser proposta entre um ano e seis meses antes do término vigente; também se exige prova do cumprimento e demais documentos do art. 71. Cinco anos, isoladamente, não garantem renovação.

Preciso registrar o contrato de locação comercial em cartório em São Paulo?

Em regra, o registro não é requisito de validade entre as partes. Para vincular um adquirente à duração restante da locação comum, são relevantes prazo determinado, cláusula expressa de vigência na alienação e ingresso do contrato na matrícula (art. 8º). Embora a Lei do Inquilinato use averbação, a Lei de Registros Públicos prevê registro dessa cláusula no art. 167, I, 3, distinto da averbação para preferência. O ato cabe ao Registro de Imóveis competente. Sem a proteção, o adquirente pode denunciar nos noventa dias do registro da aquisição, concedendo noventa dias para desocupação; não há despejo automático.

Quando devo procurar um advogado para um contrato de locação comercial?

Preferencialmente antes da assinatura e de investir em obras. A análise pode verificar titularidade, poderes, uso autorizado, licenças, prazo, garantias, encargos, benfeitorias, venda e término do contrato. Para eventual renovatória, também são importantes os comprovantes de cumprimento e a janela de ajuizamento. A assessoria não garante pagamento, continuidade da ocupação ou vitória judicial.

Alugar uma cadeira odontológica é igual a alugar o imóvel?

Não necessariamente. O ajuste pode incluir espaço, equipamentos, equipe e outros recursos, ou envolver prestação de serviços com repasse. Descreva o que integra o preço, inventário, manutenção, acesso, dados dos pacientes e encerramento. Se houver cessão, sublocação ou empréstimo de imóvel alugado, confira o consentimento prévio e escrito do locador exigido pelo art. 13 da Lei 8.245/1991. O contrato não substitui licenças e exigências profissionais. Na odontologia, a RDC Anvisa 1.002/2025 também disciplina consultórios compartilhados, responsabilidade técnica e licenciamento, com as regras de transição do art. 182.

Um bom contrato protege o que você construiu

O contrato organiza o uso do ponto onde o negócio se desenvolve. Definir prazo, garantias, encargos e mecanismos de continuidade ajuda locador e locatário a avaliar investimentos e riscos, mas seus efeitos dependem da lei, da redação e do cumprimento durante a relação.

Pense no longo prazo desde o começo: contrato escrito, prazo adequado, eventual garantia lícita e proteção em caso de venda. Combine as cláusulas com documentos e controle de datas. A renovatória não nasce de uma cláusula isolada, e a cláusula de vigência exige ingresso próprio no registro imobiliário para a proteção perante adquirente.

Na Falchet e Marques Sociedade de Advogados, escritório em São Paulo (Av. Paulista), atuamos em contratos de locação comercial e Direito Empresarial — desenhando e revisando contratos para locadores e locatários, com foco na proteção do ponto e no equilíbrio das obrigações. Se você vai alugar (ou alugar para alguém) um imóvel comercial, vale fazer o contrato com respaldo.

Fale com o nosso time pelo WhatsApp: +55 11 95901-1854 — solicite uma análise do seu contrato de locação comercial.

Fontes e referências desta atualização

Referências consultadas em 29 de outubro de 2026. As orientações dependem da operação e dos documentos concretos.

Falchet e Marques
Conteúdo institucional

Falchet e Marques Sociedade de Advogados

Conteúdo informativo sobre contratos, relações empresariais e resolução de conflitos. A orientação para uma operação específica depende da análise dos documentos e dos fatos.

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